segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Carta ao amigo

CARTA AO AMIGO



Amigo querido, de muitos anos e alguns chopes,

lendo sua carta, um extemporâneo ataque de vaidade fez-me desejar que a destinatária fosse eu. Teria requisitos: amiga sua, considero-me ( e penso ser como tal considerada); triste, estou ( de uma infinita e irretocável tristeza). Sendo ou não originariamente, tornei-me . E reli e reli o texto, cada vez mais comovida. Lágrimas vieram, mansas e comportadas a princípio, depois em copiosos borbotões, acompanhadas de deslavados ( ou lavados) soluços. Você conseguiu, amigo, descrever à perfeição o que é o mal do amor que, quando acaba, nada mais pode ser que um mal, pois amor, por sua própria natureza, tem que ser tecido em infinitude, se não em eternidade. Dá até pra pensar que, se acabou, amor não foi. Mas aí a gente descobre que a dor da perda, o luto no coração é apenas outra face desse sentimento que buscamos sofregamente desde que, ao ver pela primeira vez a luz do dia, nos damos conta de que o perdemos. No filme “Terra das Sombras”, a amada - que vai morrer - diz ao amado que a dor que ele sente naquele momento é parte do amor, que já estava prevista nas horas de alegria e prazer. E aí a gente simplesmente ama. Ama porque - como diria o nosso poeta maior - que outra coisa pode fazer uma criatura entre criaturas? A gente ama. Uns amam comportado, dentro da lei e da ordem; outros, fora da lei e dentro da desordem. Há os que amam com a simplicidade das flores do campo e os que explodem de amor como as tulipas nos campos de trigo. Há os que amam em madrigais e valsas e os que amam em elegias e tangos. Há até os que evitam amar com medo da dor, e perdem um sem se livrar da outra, e são as pessoas mais amargas do universo. A gente ama. Ama a pessoa certa, certa pessoa, a pessoa errada. Não dá pra selecionar antes.

E quando o amor se vai, a gente pensa que o mundo se foi junto, que essa brincadeira de mau-gosto chamada vida perdeu de vez o seu colorido: tudo é pó e cinza, como uma passagem extraterrena. Sabe-se que tudo que antes ali estava e que era brilhante, bonito, consolador, continua ali, mas agora é como um filme a que a gente assiste desconfortável na poltrona do vizinho. Partiu-se o eixo do mundo. Rotação e translação enlouqueceram. Meridianos e paralelos se embaraçam na linha do Equador, e a gente tropica nesse emaranhado no sono e na vigília. Tudo perde o sentido, porque era a criatura amada o sentido de tudo. E a gente olha os outros - os que ainda não perderam seu amor - e dá uma bruta inveja, às vezes uma raiva homicida, às vezes uma pena profunda ( “Esses moços, pobres moços... Ah, se soubessem o que eu sei.... Mestre Lupicínio sabia das coisas). Quando o amor se vai, se esvai de nós o sangue e os outros humores; fica o fel, que nos inunda, pelo paladar, todos os outros sentidos. E, sentidos e ressentidos, nos afastamos dos companheiros. Não mais podemos com eles repartir o pão. Não lhes queremos infringir o espetáculo deplorável da nossa alma esfarrapada, não a eles a quem exibíamos despudoradamente nossa esfuziante alegria. E é então que chega a nossa companheira, solidão chamada. Entendida em dor, ela vem, se instala, e é tão grande quanto o amor perdido. E é tão gentil... Não nos pede nada, não nos cobra nada... Não nos diz que amamos a pessoa errada, que confundimos os naipes e pegamos espadas por copas; não nos sacode o dedo em riste diante do nariz... Ela fica ali, irredutível e imutável. É mais fiel que a nossa própria sombra que, quando a noite é muito escura, também nos abandona.

Li atentamente seus conselhos de amar. Mas você certamente sabe - ou não teria escrito aquele primor de crônica - que todos esses amores que você aconselha não passam de sucedâneos daquele outro, sem o qual a vida é nada. Quando o(a) amado(a) se vai sem nos pedir licença, sem deixar a porta entreaberta para uma louca esperança, deixa conosco o amor que era dele(a), que se soma ao nosso, e o resultado dessa adição se chama saudade. E essa senhora é menos gentil que sua irmã solidão. Ela se associa à memória para nos trazer todos os momentos mais felizes, os instantes únicos de comunhão total e de paz perfeita. A razão - que nos assegura, com Vieira, que o tempo cura tudo - se fragiliza e esfacela. Fica a certeza de que , por mais conturbada que tenha sido a relação, ela será sempre única e... perfeita. Perfeita nas esperanças e desesperos, nas cartas tão plurais e tão singulares, nos telefonemas fora (e dentro) de hora, nas chegadas e partidas descontroladas e incontroláveis... Aquela criatura única a quem a gente entregou corpo e alma por inteiro não está mais lá, lá onde residiam nossos sonhos, nossos desejos, nossa vida. E aí a gente espera o carteiro, corre ao primeiro toque do telefone, atende depressa à campainha, anda pelas ruas onde uma das milhares de pessoas pode ser a que falta. E que ninguém nos fale que outro amor virá, porque, se vier, será isso mesmo - OUTRO. E a gente quer o mesmo. Portanto, solidão e saudade a tiracolo, a gente vê um filme atrás do outro, lê todos os livros que pode conseguir, bebe mais do que pode, come mais do que deve. E espera. Que um dia aquele que se autoproclamou o Amor maior se apiede e diminua a dor, esfume a tristeza e faça a gente voltar a viver. Nessa espera, tenho estado.

Todo o carinho da sua amiga desamorada e desarvorada.

L.

Um comentário:

Daniela Asth disse...

Que linda é a escrita! Alguém sofre para escrever exatamente aquilo que podemos usufruir sofrendo depois. Muito bom lê-la, eterna professora!